Problema essencial envolto em obscuras dificuldades

 

 

O surgimento da filosofia é costumeira e repetidamente visto como “o milagre grego”. Qual é o milagre grego? O surgimento entre os homens livres das cidades-Estados gregas de cidadãos que desenvolvem livremente a filosofia. Como se explica esta diferença? Vejamos esta passagem do artigo “Os significados da Política”, de Antonio Ozaí, ver em https://antoniozai.wordpress.com/2017/04/15/os-significados-da-politica/ :

“Na antiguidade clássica, mais precisamente em Atenas, a ação política expressava o “cimento da vida social”: a pólis, o coletivo, não está separado dos indivíduos; o cidadão é o homem livre que participa da administração (governo) da cidade; o espaço da política é o espaço público e a relação é horizontalizada. Não há ruptura entre a esfera do eu e o coletivo: a atividade política se reflete e se harmoniza com a vida pessoal, e o indivíduo livre se realiza no coletivo. A política cumpre uma função pedagógica: transformar indivíduos em cidadãos, e, neste sentido, ela é ética. Na Grécia antiga, a política abrange governantes e governados, diz respeito à pólis, à comunidade dos homens livres, os quais possuem o status de cidadãos. Mas as mulheres e os escravos são excluídos da cidadania.”

Esta horizontalidade e ausência de ruptura entre a esfera do eu e do coletivo caracteriza a pólis como o milagre da comunidade dos homens livres com o status de cidadãos, ainda que as mulheres e os escravos estejam excluídos da cidadania. Comunidade de homens livres, ou seja, aí qualquer um, dos cidadãos ou homens livres, pode desempenhar quaisquer uma das funções ou atividades de administração (governo) da cidade. Eles desfrutam de algo similar à “abstração da categoria ‘trabalho’, ‘trabalho em geral’, trabalho ‘sans phrase’” cultivada pela sociedade burguesa moderna e que efetivamente “só se torna verdade prática”, segundo Marx, “nos Estados Unidos”, do mesmo modo, para Ozaí , é mais precisamente em Atenas que ocorre este fenômeno da pólis ou cidade como ‘cimento da vida social’. Ambos têm razão, mas assim como existiram homens livres e filósofos em muitas outras pólis ou cidades gregas também existiram muitos outros indivíduos capazes de “empregar a si próprios” nos mais diversos trabalhos em outros países capitalistas europeus, a começar pela Inglaterra. De qualquer modo, esta abstração da categoria trabalho com o sentido de capacidade de exercer livremente e por decisão própria quaisquer atividades de um modo geral coincide por completo com esta liberdade dos homens livres da polís grega para desempenhar quaisquer das funções ou atividades de administração (governo) da cidade.

Este é o solo comum que horizontaliza aqueles que desempenham atividades, funções ou trabalhos livremente ou empregando a si próprios. E Marx coincide com Aristóteles ao caracterizar esta horizontalidade e liberdade como resultante da abstração do trabalho ou atividade, posto que Aristóteles concebe que quão maior o grau de abstração maior o grau de liberdade e saber. Com isso nos deparamos não só com a semelhança entre os dois filósofos no destaque da maior liberdade do mais abstrato em relação ao concreto, mas acrescentamos o surgimento da filosofia no mundo moderno, inclusive, na Alemanha, que não era nada desenvolvida, ainda que, na Europa, fosse a mais teórica e especulativa das filosofias, à maneira da exaltação da filosofia por excelência de Aristóteles. Esta, segundo Marx, era uma disfunção da Alemanha, que só se encontrava, no mesmo plano do espaço público e da relação horizontalizada, com as sociedades burguesas contemporâneas da Inglaterra e da França, quando praticava a atividade filosófica e, aí, a Alemanha comparecia na comunidade dos homens livres como a praticante da filosofia especulativa por excelência. Esta disfunção percebida por Marx [ele caracterizava a Alemanha como teórica e lugar da Reforma, a França como política e lugar da Revolução Burguesa e a Inglaterra como prática e lugar da Revolução Industrial] só nos auxilia a compreender porque em outras polís gregas puderam florescer filósofos.

Mas isto não resolve tudo. Vejamos então esta passagem de “O Método da Economia Política”:

“Assim [ele está se referindo à passagem que citamos acima], a abstracção mais simples, que a economia política moderna coloca em primeiro lugar e que exprime uma relação muito antiga e válida para todas as formas de sociedade, só aparece, no entanto, sob esta forma abstracta como verdade prática enquanto categoria da sociedade mais moderna. Poder-se-ia dizer que esta indiferença em relação a uma forma determinada de trabalho, que se apresenta nos Estados Unidos como produto histórico, se manifesta na Rússia, por exemplo, como uma disposição natural. Mas, por um lado, que extraordinária diferença entre os bárbaros que têm uma tendência para se deixar empregar em todos os trabalhos, e os civilizados que se empregam a si próprios. E, por outro lado, a esta indiferença em relação a um trabalho determinado corresponde na prática, entre os Russos, a sua sujeição tradicional a um trabalho bem determinado, ao qual só influências exteriores podem arrancá-los. ”

Só nos Estados Unidos a Independência instituiu uma República Democrática que não se submetia a tutores e era ela própria o espaço público e horizontal dos cidadãos que eram eles mesmos tutores de si próprios. Mesmo a Inglaterra tinha, além da Monarquia, a Câmara dos Lords, antes de chegar ao espaço público e horizontal da Câmara dos Comuns. A França que tinha tido a Ilustração não pôde parar de lutar contra a tutela do absolutismo e se lançou na Revolução, ainda que esta, até hoje, não tenha resolvido todos os seus problemas de tutela política. A Alemanha foi tão tutelada pelo poder político que quase não fez e não teve sucesso com suas revoluções, mas, por outro lado, foi muito bem-sucedida quando fez a Reforma, se diz, assim, que ela é o lugar das revoluções por cima. A Rússia ficou famosa com os seus déspotas esclarecidos (Pedro, o Grande; Catarina, a Grande) que arrancaram os camponeses da servidão, ainda que não por completo, e abriram espaço público para a tal da Intelligenstizia. A censura, que foi exercida na França, Alemanha e em outros lugares, na Rússia desenvolveu uma característica singular, porque aí os censores eram também parte da Intelligenstizia ou se confundiam com ela, ou seja, aí a polícia política era uma atividade da Intelligenstizia de modo que a própria Intelligenstizia se desenvolveu como polícia política, ou seja, aí a espionagem e suas técnicas eram atividades desenvolvidas pela repressão e pela revolução, talvez, porque para ser livre aí fosse imprescindível lutar continuamente para ser tutor e não ser tutelado. De todo modo, aí, aquilo que muitos políticos reacionários brasileiros costumam dizer, “o preço da liberdade é a eterna vigilância”, “se torna verdade prática” [ainda que, atualmente, o Big Brother tenha se generalizado até como espetáculo de entretenimento, talvez em rememoração de reality show de gladiadores na Antiga Roma]. Ora, viver sob tal preço da liberdade não é exatamente viver no plano da horizontalidade e sim em permanente luta com o plano da verticalidade. Talvez aí esteja presente aquilo que Marx chamou de uma “disposição natural” ou “uma tendência natural para se deixar empregar em todos os trabalhos” devido “a sua [dos Russos] sujeição tradicional a um trabalho bem determinado [a servidão, certamente], ao qual só influências exteriores podem arrancá-los”.

 

Viagens anteriores ao texto acima:

 

 

Uma objeção que pode ser feita ao texto já publicado [Atomismo, Economia Política, Epicuro, Marx e a CEU] é que, talvez, não tenha ficado mais fácil entender esta passagem de “O Método da Economia Política”: “(…) O dinheiro pode existir e existiu historicamente antes de existir o capital, os bancos, o trabalho assalariado, etc. Neste sentido, podemos dizer que a categoria mais simples [o dinheiro neste caso] pode exprimir relações dominantes de um todo menos desenvolvido ou, pelo contrário, relações subordinadas de um todo mais desenvolvido, relações que existiam já historicamente antes que o todo se desenvolvesse no sentido que encontra sua expressão numa categoria mais concreta.”

 

 

Porque, ainda que Epicuro tenha alforriado seus escravos, não foi o trabalho assalariado que predominou na sua época e sim o trabalho escravo, aliás, predominante desde a época de Demócrito e, até mesmo, antes dela. O que podemos dizer sem termos um conhecimento preciso da economia antiga é que o mercado na época de Demócrito era um mercado que diferenciava e separava a Grécia da Pérsia, do Egito, da Índia etc., enquanto que o mercado da época de Epicuro é um mercado constituído pelo Império de Alexandre Magno que juntava as diferentes regiões numa mesma unidade universal e também um mercado pós-morte de Alexandre e onde a unidade universal se divide em novas unidades regionais chamadas de Satrapias. Epicuro viveu as duas fases. Uma, com Alexandre ainda vivo, e outra, com as Satrapias já constituídas.

 

 

Os templos na Grécia Antiga guardavam os tesouros das Confederações de Delos, sob hegemonia de Atenas, e do Peloponeso, sob hegemonia de Esparta. Desempenhavam por vezes papel de bancos. Demócrito foi contemporâneo dos sofistas, de Sócrates e de Platão. Os sofistas se notabilizaram por vender seus serviços à maneira de professores de advocacia. Sócrates se destacou pela crítica à redução da verdade a mera mercadoria. Platão por criar a Academia, uma escola particular de filosofia, a qual, certamente, não defendia a produção da verdade como mercadoria/sofisticação, mas como ele mantinha e desenvolvia com seus discípulos a Academia?! Ela era um empreendimento privado voltado para o desenvolvimento duma certa coletividade, a dos discípulos, visando um objetivo que era a instituição do reinado da filosofia via rei-filósofo e do Estado como república. A escola de Aristóteles, o Liceu, já é a de um discípulo de Platão, com luz e filosofia próprias, que, à sua maneira, realizou o objetivo da Academia de Platão através de Alexandre Magno, o discípulo de Aristóteles. Demócrito é considerado o último dos filósofos da Natureza, também chamados de pré-socráticos, mas foi um filósofo nômade, portanto, também foi um filósofo que afirmou o átomo por meio da sua individualidade livre de sedentarismo. Para tanto, era preciso que dispusesse de riqueza, era preciso que viajasse com uma tropa ou exército de escravos e de homens livres assalariados, que pudesse manter esta tropa ou exército durante as viagens, também era preciso que tivesse feito fortuna, antes dessas viagens, no seu lugar de origem, era preciso que tivesse propriedade fundiária e que ela fosse de natureza privada de modo a permitir que dispusesse da sua produção para realizar as suas viagens, era preciso que ele levasse consigo mercadorias para vender além das moedas para comprar e trocar por mercadorias. Se a propriedade fundiária fosse comunal dificilmente ele teria podido sair viajando, se fosse um viajante solitário rapidamente poderia vir a ser escravo, se fosse apenas um trabalhador assalariado rapidamente poderia vir a cair na miséria ou cair na escravidão, dada a dificuldade de obter trabalho assalariado, se fosse muito rico e solitário rapidamente seria roubado e cairia na miséria ou na escravidão. Suas viagens de sábio precisavam ser ao mesmo tempo viagens de um mercador no comando duma caravana, portanto, ele viajava com suas mercadorias como determinações simples da divisão do trabalho, do dinheiro, do valor, etc., quer dizer, ele viajava com classes sociais, com divisão entre trabalhadores escravos e livres, com mercadorias, moedas, escravos, animais e os conhecimentos surpreendentes que apresentava a todos que encontrava no caminho e com quem trocava por novos conhecimentos e/ou por mercadorias.

 

 

Epicuro é um filósofo pós-aristotélico que não visa mais chegar ao poder como rei-filósofo, nem visa ser sofista, nem um crítico socrático, nem um educador platônico ou aristotélico. Parece, até mesmo, por isso, que ele vai buscar seus princípios no último dos filósofos da Natureza, Demócrito, querendo ser também um átomo, quer dizer, uma individualidade que afirma sua própria vida autônoma, mas que o faz sendo sedentário e na qualidade de proprietário particular do seu Jardim que era ao mesmo tempo a sua escola de filosofia. E este átomo ou individualidade precisava da propriedade fundiária particular do seu Jardim para nela produzir como quisesse, precisava de trabalhadores escravos para aí produzir seu Jardim e também de trabalhadores livres para aí produzir a filosofia do seu Jardim. A importância do trabalho livre e cooperativo foi se desenvolvendo junto com o desenvolvimento da filosofia do seu Jardim, de modo a parecer que a importância da comunidade foi superando a importância do mercado. Talvez, mais do que o viver na época dum Império que tornou o mercado mundial uma mesma universalidade, o epicurismo tenha maior importância por, de algum modo, se aproximar desta outra passagem d’’’O Método da Economia Política”: “(…) podemos dizer que há formas de sociedade muito desenvolvidas, mas a quem falta historicamente maturidade, e nas quais descobrimos as formas mais elevadas da economia, como, por exemplo, a cooperação, uma divisão do trabalho desenvolvida, etc., sem que exista qualquer forma de moeda: o Peru, por exemplo. Também entre os Eslavos, o dinheiro e a troca que o condiciona não aparecem ou aparecem pouco no interior de cada comunidade, mas aparecem nas suas fronteiras, no comércio com outras comunidades.” De certo modo, isto se confirma pelo resultado alcançado pelo epicurismo que é a dissolução do atomismo na ciência natural da consciência humana de si, ou seja, em lugar de sair atravessando o mundo, tal qual Demócrito com seu atomismo, Epicuro dissolveu o atomismo na criação de um mundo comum da subjetividade humana; em lugar de ir atravessando e interpretando o mundo de diferentes maneiras com seus princípios cuidou de ir elaborando e criando um mundo novo a partir da transformação e supressão do mundo dos seus princípios em novos princípios do novo mundo.

 

 

Esta forma comunitária do Jardim de Epicuro talvez seja mais madura que a comunidade do Peru, ainda que não tão desenvolvida em cooperação quanto ela.

 

 

Aqui, talvez, tenha aparecido algo que divide o Ocidente e o Oriente há milênios, a propriedade fundiária comunal oriental e a propriedade fundiária particular ocidental. Acima da propriedade comunal oriental pode se situar a propriedade particular estatal e acima da propriedade privada ocidental pode se situar a propriedade social comum.

 

 

Marx destaca duas formas de indiferença ao tipo de trabalho concreto que ele percebe existindo nos Estados Unidos e na Rússia. Nos Estados Unidos ele considera que é a indiferença propriamente dita a qualquer tipo determinado de trabalho que se desenvolve como uma libertação do trabalho concreto conquistada pelo trabalhador. Já na Rússia ele considera que a indiferença a qualquer tipo determinado de trabalho se desenvolve como uma submissão do trabalhador a determinado tipo concreto de trabalho. Ele relaciona esta submissão do trabalhador russo de modo indiferente a qualquer tipo de trabalho com a existência da comuna rural russa ou duma disposição a servir a Natureza/Sociedade e relaciona a conquista do trabalhador estadunidense duma indiferença a qualquer tipo de trabalho com a existência da sociedade urbana burguesa ou duma disposição a criar a Sociedade/Natureza.

 

 

Podemos relacionar isto com as guerras de guerrilhas dos Talibãs, da Al Caeda, do Estado Islâmico que se assemelham a atividades de destruição niilistas, caóticas, anárquicas, mas que resultam em comunidades sob um poder duma máquina despótica e absoluta nas quais parecem reinar tanto a submissão a qualquer tipo de trabalho quanto a submissão ao mercado cruel puro e simples.

 

 

A tal dominação da categoria mais simples num todo concreto menos desenvolvido que relacionamos com a atividade de Demócrito na Grécia Antiga e dos Mercantilistas no século XVII chama nossa atenção para uma atividade designada na época de Demócrito de práxis e que é a atividade do mercado da qual apenas os homens livres participam com direito a comerciar porque os homens escravos aí só entram como objetos de comércio dos homens livres. Os escravos não podem comerciar, então a categoria mais simples, o dinheiro ou moeda, que aparece dominante num todo concreto menos desenvolvido, está interditada para os escravos, logo, é uma categoria exclusiva do trabalhador livre e proibida para o trabalhador escravo. Mas, o trabalho assalariado não era uma práxis generalizada, sendo mais comum que os homens livres fossem proprietários fundiários, de escravos, de mercadorias e não assalariados mas sim pagos por sua mercadoria como eram os sofistas, por exemplo, pagos por ensinar a argumentar a favor e/ou contra uma causa e vice-versa, pagos por ensinar uma técnica e conhecimento. Existe ainda algo que a antiga filosofia grega nos ensina, especialmente através de Aristóteles, que é a caracterização da filosofia como atividade própria da ociosidade, própria de quem dispõe do tempo livre da negação do ócio, que caracteriza o negócio e/ou comércio da práxis, e de quem está obrigado à atividade útil, concreta e de produzir como escravo do tempo de trabalho. Aristóteles caracteriza o processo de desenvolvimento da abstração como processo de acesso progressivo ao plano da filosofia, que é o plano do que é abstrato por excelência, da ociosidade filosófica e que também é o plano daquilo que se pode caracterizar como o plano no qual se situa o capital [Ver https://singularidadeabstrata.wordpress.com/2015/05/16/ocio-intelectivo…tafisica-valor-2/ %5D. Então, uma outra questão que pode ter fornecido para Demócrito uma maior liberdade para viajar, mesmo sem a segurança de uma tropa de escravos e de homens livres, é a sua atividade filosófica, ou seja, o conhecimento que na época desempenhava o papel e a função do capital. Haveria a possibilidade do filósofo passar livre por diferentes regiões por fornecer conhecimentos para os habitantes de tais regiões que funcionam como a aquisição de capital por tais populações. Como é possível que a Grécia tenha filósofos que são indivíduos que se destacam dos demais de modo independente deles. A Pérsia, o Egito, os Caldeus de um modo geral possuem também homens de conhecimento ou de sabedoria, mas eles não são filósofos, não são independentes ou membros da ‘sociedade civil’ separados do ‘Estado’, ao contrário, normalmente eles são membros das camadas sacerdotais, burocráticas e/ou governamentais. A exceção, talvez, se encontre na Índia, onde os chamados gymnosofistas (iogues) estão espalhados pelas regiões habitadas como se fossem mendicantes ou vivem retirados de tais regiões e isolados em montanhas, grutas, florestas. Porém, por outro lado, a própria organização social da índia em castas difere significativamente de todas as formas de sociedade aí existentes.

 

 

As escolas filosóficas gregas eram organizações não-governamentais enquanto que as camadas sacerdotais e burocráticas de diferentes regiões contemporâneas da Grécia Antiga eram parte de organizações governamentais. A exceção eram os gymnosofistas (iogues) da Índia que viviam à margem da organização social em castas, a qual, tinha no topo os brâmanes ou casta dos sacerdotes e na base, como excluídos, estavam os párias ou sem casta. Estes nasciam para ser socialmente escravos e/ou sem quaisquer direitos, não podiam nem podem ser confundidos com os gymnosofistas (iogues).

 

 

Estas disparidades ou diferenças tão significativas tem origem em algo. No caso da Índia já ficou claro que tem relação com sua organização social. Porém, isto não deve ser visto como exceção, ou seja, também é a organização social de todos os demais que explica as disparidades entre eles. E aí nós podemos vir a nos encontrarmos com algo muito mais significativo que é a cisão entre Ocidente e Oriente em eterno retorno na região do Mediterrâneo, do Norte da África (se estendendo para toda ela, com certa exceção para o Sul da África), do Oriente Médio, do Sudeste Asiático, mas também com a Eurásia (Afeganistão, Paquistão, Iraque, Irã, Rússia etc.) e com o Extremo Oriente (China).

 

 

O estudo de Marx das determinações simples ou das categorias simples citado n’”O Método da Economia Política” tem relação com isto. Ele começa a diferenciar na economia e/ou na articulação das determinações ou categorias simples com o desenvolvimento do todo concreto e a verificar a diferença do modo de produção resultante de tais articulações. Ele começa a ficar atento para a propriedade fundiária comunal e para um modo de produção asiático que tendem a perdurar no tempo sem grandes mudanças históricas. A Índia e a China são vistas como sociedades culturalmente desenvolvidas, que perduram no tempo quase que sem grandes mudanças históricas, por terem um modo de produção asiático predominando no desenvolvimento do seu todo concreto, logo, elas têm no seu íntimo uma comuna rural ou propriedade fundiária rural do tipo que atravessa, com grande imunidade, as mudanças históricas. Que será aquilo que pensou a propósito dos povos árabes que parecem permanecer culturalmente imunes às mudanças históricas? Ele começa a ver este tipo de comuna rural pela Europa, América Latina e, talvez, até na África, ou seja, não é um fenômeno exclusivamente asiático. Mas, se é um fenômeno que, se articulando com outras determinações simples, por exemplo, na Europa, se mostra mais suscetível às mudanças históricas, o mesmo não ocorre na Ásia e, talvez, por isso, deve ter considerado e ter visto a sua permanência maior e mais imune às mudanças históricas aí e, assim, ter mantido o nome de modo de produção asiático. [Ver http://orientacaomarxista.blogspot.com.br/2009/05/marx-e-o-ultimo-engels-o-modo-de.html ]

 

 

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