Atomismo, Economia Política, Epicuro, Marx, a CEU e Cosmovisão

 

 

 

Aqui está o texto que inspirou e antecede todos os que já foram publicados, como “Atomismo, Economia Política, Epicuro, Marx e a CEU” e o texto anterior a este que foi incluído via atualização, “Problema essencial envolto em obscuras dificuldades” e o texto antecedente também incluído via atualização, “Barbárie e Socialismo” e a mensagem que deu origem ao mesmo bem como o link ao qual se referia a mensagem.

Antes tive receio de publicar porque me pareceu um texto muito intimista, mas agora, ao contrário, já não tenho mais receio e o considero um texto muito público e que precisa ser ainda mais público de modo a desenvolver a horizontalidade e a conjunção “entre a esfera do eu e o coletivo: a atividade política se reflete e se harmoniza com a vida pessoal, e o indivíduo livre se realiza no coletivo. A política cumpre uma função pedagógica: transformar indivíduos em cidadãos, e, neste sentido, ela é ética. “ (Ver https://antoniozai.wordpress.com/2017/04/15/os-significados-da-politica ) e ainda a conjunção ou “A coincidência da alteração das contingências com a atividade humana e a mudança de si próprio só pode ser captada e entendida racionalmente como práxis revolucionária” (ver terceira tese em http://orientacaomarxista.blogspot.com.br/2009/06/escrito-na-primavera-de-1845-publicado.html ainda que esta versão seja muito intervencionista e modificadora do texto original de Marx das “teses sobre Feuerbach”).

Acho que merece o mesmo título e a mesma dedicatória de outro texto já publicado, mas com um pequeno acréscimo.

 

Para Pedro Pingote & amigos da CEU & do Cosmo Humano

 

 

Porque eu estou atado à observação de Marx dum procedimento que parte do infraestrutural?! Será que é essa mesmo a pergunta que ia me fazer?! Se for isso mesmo, então este infraestrutural ao qual estou atado está muito mais conectado à infraestrutura do atomismo grego da sua tese de doutorado sobre Demócrito e Epicuro do que à infraestrutura da economia política que o tornou famoso.

Aí nesta tese de doutorado o atomismo evidentemente é a infraestrutura comum aos dois filósofos da Natureza, mas seus sistemas atomistas são antagônicos em tudo e tem como resultado posições igualmente antagônicas, de modo que, para Demócrito, o resultado é que só existe e perdura o atomismo em eterno retorno, enquanto que, para Epicuro, o resultado do seu sistema é a dissolução do atomismo e a libertação/emancipação da ciência natural da consciência humana de si como constituição dum outro e novo sistema.

A tese de Marx acompanha o desenvolvimento das diferenças entre o atomismo de Demócrito e o de Epicuro. A primeira diferença é que, para Demócrito, o atomismo é a realidade verdadeira e o mundo que percebemos sensivelmente não é nada mais do que uma aparência subjetiva, ou seja, algo que existe apenas para nós e que não existe em si mesmo, melhor, cuja realidade, tal qual ela é em si mesma, não pode ser outra coisa que os próprios átomos e o vazio. Então, todo o mundo sensível e inclusive o ser humano não passam de aparência subjetiva ou falsidade e são apenas átomos e vazios na realidade objetiva ou verdadeira. Para Epicuro, o mundo que percebemos sensivelmente é realidade objetiva e não pode ser reduzido a uma mera aparência subjetiva, já os átomos e o vazio são uma realidade subjetiva que não percebemos sensivelmente e que percebemos insensível e abstratamente. Então, todo o mundo sensível e inclusive o ser humano são realidade objetiva ou verdadeira, mas também todo o mundo insensível dos átomos e do vazio são realidade subjetiva ou verdadeira da subjetividade do ser humano.

A consequência desta diferença é que a realidade objetiva e verdadeira de Demócrito, os átomos e o vazio, são insensíveis e imperceptíveis e Demócrito não pode experimentar ou desfrutar de sua positividade de realidade objetiva e verdadeira, mas, por outro lado, a aparência subjetiva e falsa, o mundo sensível e o próprio ser humano, são sensíveis e perceptíveis e Demócrito está obrigado a experimentar e desfrutar desta sua positividade de aparência subjetiva e falsa. Consequentemente, Demócrito cumpre com sua obrigação, com o seu dever de experimentar e desfrutar da positividade da aparência subjetiva e falsa, bem como cumpre igualmente com sua frustração de não poder experimentar e desfrutar da positividade da realidade objetiva e verdadeira. Noutras palavras, a prática científica de Demócrito se desenvolve como empirismo, acumulação de experimentações positivas do mundo sensível da aparência subjetiva e falsa, erudição e isto precisamente porque não pode experimentar nem desfrutar positivamente da realidade objetiva e verdadeira dos átomos e do vazio.

É evidente que ocorre o contrário com Epicuro. Ele pode experimentar e desfrutar da realidade objetiva e verdadeira do mundo sensível e do ser humano, logo, não se frustra e se satisfaz experimentando e desfrutando dela. Porém, tanto para ele quanto para Demócrito, os princípios são os átomos e o vazio, mas, ao contrário de Demócrito, Epicuro pode experimentar e desfrutar da realidade subjetiva e verdadeira dos átomos e do vazio, quer dizer, pode experimentar e desfrutar da sua “positividade” subjetiva, melhor, pode experimentar e desfrutar da sua realidade subjetiva e verdadeira de filosofia, de conceito. A prática científica de Epicuro se desenvolve como filosofar, elaboração conceitual, autodidatismo precisamente porque pode experimentar e desfrutar filosoficamente da realidade subjetiva e verdadeira dos átomos e do vazio.

Como consequência disto surge uma outra diferença.

Demócrito, que desenvolve positivamente a aparência subjetiva experimentando e desfrutando dela das mais diversificadas formas visando alcançar seus limites últimos de aparência subjetiva e falsa, acaba concebendo a sua relação sistêmica com o seu sistema como desenvolvimento sistemático do determinismo ou do movimento determinado pela necessidade.

E Epicuro, que desenvolve filosoficamente a realidade subjetiva experimentando e desfrutando dela da forma mais autodidática possível visando alcançar sua essência última de realidade subjetiva e verdadeira, acaba concebendo a sua relação sistêmica com o seu sistema como desenvolvimento sistemático da livre determinação ou do movimento autodeterminado pela liberdade.

Curiosamente, Demócrito se aprisiona no desenvolvimento sistemático da positividade que, para ele, é pura aparência subjetiva e falsidade que cada vez se agiganta e concretiza mais e mais, enquanto que a pura realidade objetiva e verdadeira permanece eterno retorno da frustração duma positividade insensível e inacessível, enquanto que Epicuro se liberta do desenvolvimento sistemático da positividade que, para ele, é pura realidade objetiva e verdadeira que cada vez se reduz e abstrai mais e mais enquanto desenvolve a pura realidade subjetiva e verdadeira se agigantando e concretizando mais e mais como pura realidade subjetiva e verdadeira da própria consciência de si humana e não mais dos conceituais átomos e vazio. [Epicuro se liberta no desenvolvimento sistemático  da conceitualidade que, para ele, é pura realidade subjetiva e verdadeira que cada vez se agiganta e concretiza mais e mais, enquanto que a pura realidade objetiva e verdadeira permanece contínua mudança da satisfação duma positividade sensível e acessível, ou seja, a realidade subjetiva e verdadeira (que se agiganta e concretiza) vem a ser a consciência humana de si que livremente sente e acessa sua satisfação na realidade objetiva e verdadeira (que continuamente se modifica e “abstrai“).]

Demócrito, que é cético e empírico, desenvolve seu ceticismo e seu empirismo como determinismo de modo que acaba tendo, de um lado, os átomos e o vazio como princípios insensíveis da realidade objetiva e verdadeira, de outro, o mundo sensível e o ser humano como realidade positiva da aparência subjetiva e falsa. Epicuro, que é dogmático e filosófico, desenvolve seu dogmatismo e seu filosofar como livre determinação de modo que acaba tendo, de um lado, o mundo sensível e o ser humano como realidade objetiva e verdadeira, de outro, os átomos e o vazio como princípios conceituais da realidade subjetiva e verdadeira do sujeito humano ou da consciência de si humana.

Marx destaca que o atomismo de Demócrito é o fundador do atomismo, mas é um atomismo que não se realiza, que permanece tendo os átomos e o vazio como a hipótese do objeto real e verdadeiro e tendo o mundo sensível e humano como a concretude/positividade do sujeito aparente e falso. Destaca também que o atomismo de Epicuro é o do fundador da ciência natural da consciência humana de si, porque é um atomismo que se realiza tendo os átomos e o vazio como a concepção/subjetividade do sujeito real e verdadeiro e tendo o mundo sensível e humano como o ser/objetividade do sujeito real e verdadeiro.

Noutras palavras, por considerar o mundo sensível realidade objetiva e verdadeira e os princípios atomistas como realidade subjetiva e verdadeira, Epicuro pode se abstrair do mundo sensível porque, sendo realidade objetiva e verdadeira, ele não precisa realizá-la objetiva e verdadeiramente, ao contrário, ele pode se dedicar sem quaisquer limitações a aperfeiçoar seus princípios atomistas, porque, sendo eles realidade subjetiva e verdadeira, podem ser experimentados e desfrutados como aperfeiçoamento da subjetividade real e verdadeira, melhor, como a verdadeira realização subjetiva do ser humano. Epicuro deixa a livre determinação seguir seu curso na realidade objetiva e verdadeira do mundo sensível de modo que nas circunstâncias do mundo sensível vigora o acaso como princípio determinante. E, por outro lado, Epicuro deixa igualmente a livre determinação seguir seu curso na realidade subjetiva e verdadeira do ser humano de modo que na educação do ser humano vigora a vontade livre como princípio determinante.

O atomismo de Epicuro se desenvolve e se realiza como uma elaboração do atomismo e/ou dos princípios do atomismo e, mais ainda, como uma crítica do atomismo e/ou dos princípios do atomismo, por isso que a supressão da filosofia do atomismo e dos princípios do atomismo revela a emancipação da inovação epicurista ou do verdadeiro sistema de Epicuro que é o sistema da sabedoria ou ciência da consciência humana de si.

A partir desta tese Marx também se entrega a esta mesma atividade que ele demonstrou ser a de Epicuro, ou seja, se entrega à crítica dos sistemas e princípios filosóficos existentes de modo a emancipar e que venham a existir sistemas e princípios sábios e cientes humanamente de si.

Algo similar se passa naquele texto famoso de Marx “O Método da Economia Política”:

Ver em https://www.marxists.org/portugues/marx/1859/contcriteconpoli/introducao.htm e http://orientacaomarxista.blogspot.com.br/2008/08/o-mtodo-da-economia-poltica-karl-marx.html, ainda que as traduções aí tenham erros que ficam muito estranhos no texto, como colocar consistência no lugar de consciência e colocar correta no lugar de concreta, além disso, algumas passagens parecem versões que alteram por completo o sentido presente em traduções mais clássicas como a manifesta em “Contribuição Para A Crítica Da Economia Política”, de Karl Marx, nº 8 da Colecção Teoria, Editorial Estampa, Lisboa – 1973, pp. 228-237. Ainda que nesta Subjekt = sujeito apareça traduzido por objeto, o que, diga-se, não ocorre nas traduções dos links acima indicados.

Aí a economia política aparece como resultado do estudo dos primeiros economistas, quer dizer, dos primeiros que se dedicaram a conhecer um país real e concretamente, logo, começando pela população e se frustrando porque ela “é uma abstração quando, por exemplo, deixamos de lado as classes de que se compõe. Por sua vez, estas classes serão uma palavra oca se ignorarmos os elementos em que se baseiam, por exemplo, o trabalho assalariado, o capital, etc. Estes últimos supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços, etc. O capital, por exemplo, não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem os preços, etc.” Uma série de abstrações sistemáticas se sucedem e no final resta um conjunto relativamente elaborado de abstrações que se repetem e se relacionam entre si como sendo a economia política ou a infraestrutura real e concreta do país que se quis conhecer real e concretamente. Esta série de abstrações sistemáticas que constituem a economia política são como os átomos e o vazio e suas relações mútuas que constituíram o atomismo de Demócrito na Grécia Antiga.

Marx diz que “Os economistas do século XVII, por exemplo, partem sempre do todo vivo: a população, a nação, o Estado, vários Estados, etc.; no entanto, acabam sempre por descobrir, mediante a análise, um certo número de relações gerais abstratas determinantes, tais como a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor, etc. Uma vez fixados e mais ou menos elaborados estes fatores começam a surgir os sistemas econômicos que, partindo de noções simples – trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca – se elevam até ao Estado, à troca entre nações, ao mercado universal. Eis, manifestamente, o método científico correto.”

Então, depois dos fundadores da disciplina da economia política, que fixam os fatores sistemáticos mais ou menos elaborados da economia política, começam a surgir aqueles que, partindo destes fatores elaborados da disciplina da economia política, constroem sistemas econômicos que trazem de volta o país real e concreto do qual se partiu mas como a consciência e o conhecimento do país real e concreto, tais quais são para nós, e não como o ser e a ignorância do país real e concreto, tais quais são em si mesmos.

Esta diferenciação entre os fundadores da disciplina da economia política e os livres criadores de sistemas econômicos a partir da disciplina de economia política é semelhante ao trabalho que fez sobre o atomismo, mas aqui, no texto sobre o método da economia política, Marx se debruça sobre a passagem da disciplina [da economia política] para a liberdade [de criar sistemas econômicos] de uma maneira mais atenta à transição duma situação de disciplina para outra situação de liberdade. De modo que está atento para aquilo que configura escravidão ou determinismo da necessidade e aquilo que configura emancipação ou autodeterminação da liberdade. Como aparece isto aí no texto do método? Como um problema metodológico das categorias econômicas que estão numa situação de determinações unilaterais de um todo e aquelas que estão numa situação de determinações multilaterais de um todo.

Ou seja, um problema inicial, de diferenciação entre as categorias econômicas resultantes do estudo e compreensão de um todo que se afunda e dissolve abstratamente nestas categorias e estas mesmas categorias fazendo o caminho de volta de elevação e concreção livre delas num todo real e concreto abstrato/pensado, se transforma num aprofundamento da passagem das categorias abstratas da disciplina para as categorias abstratas da livre criação. Porque Marx começa a se ater a diferenciar categorias econômicas em momentos e processos históricos positiva e disciplinarmente determinados das categorias econômicas em momentos e processos históricos conceitual e livre-criativamente determinados.

Primeiro elas podem aparecer como categorias abstratas inteiramente independentes e livres dos processos históricos positivos, mas tais categorias econômicas como puros conceitos livremente criados historicamente se mostram muito diferenciadas em si mesmas dependendo de serem observadas em sistemas econômicos diferenciados no tempo histórico e na conjunção histórica com outras categorias econômicas.

Marx dá a entender que o ser humano é antes de tudo um ser natural, isto também é o que consideravam os filósofos atomistas da Natureza da Antiga Grécia. Ele observa:

“Mas não terão também estas categorias simples uma existência histórica ou natural autônoma anterior às categorias concretas? Ça dépend (Depende); Hegel, por exemplo, tem razão em começar a sua Filosofia do Direito pela posse, a mais simples das relações jurídicas entre individuos; ora não existe posse antes da família ou das relações de servidão e dominação, que são relações muito mais concretas; em contrapartida, seria correto dizer que existem famílias e tribos que se limitam a possuir, mas que não têm propriedade. A categoria mais simples relativa à posse aparece, portanto, como uma relação de simples comunidades familiares ou de tribos; numa sociedade mais avançada, aparece como a relação mais simples de uma organização mais desenvolvida; porém, está sempre implícito o sujeito concreto cuja relação é a posse. Podemos imaginar um selvagem isolado que seja possuidor, mas, neste caso, a posse não é uma relação jurídica. Não é exato que, historicamente, a posse evolua até à família; pelo contrário, a posse pressupõe sempre a existência dessa ‘categoria jurídica mais concreta’.”

Marx situa a existência da família como “categoria jurídica mais concreta” para que se conceba a existência da posse, ou seja, a posse resulta das relações de servidão e dominação entre os indivíduos presente na família. Assim, por exemplo, a posse aparece como simples relação de comunidades familiares ou tribos. O nomadismo e as simples coleta, caça e pesca podem ser concebidos como uma tal relação de mera posse da Natureza. A categoria da propriedade não existe nestas comunidades familiares ou tribos praticantes da posse pela coleta, pela caça e pela pesca. Só com o surgimento da agricultura e da pecuária que começa também o processo de surgimento da propriedade da Natureza. Um antropólogo pode ser de grande ajuda para a compreensão da diferenciação pela qual passa a categoria da posse até a chegada da categoria da propriedade. O que é importante aqui? Saber que as categorias abstratas não podem ser abstraídas de determinadas condições reais e concretas mas podem ser abstraídas de outras, ou seja, elas não podem existir historicamente em determinadas realidades concretas mas podem existir historicamente noutras realidades concretas. Desse modo, um outro procedimento entra em ação na hora de fazer uso das categorias abstratas determinantes da disciplina da economia política. Se trata de verificar não só a existência delas no todo real e concreto que se quer estudar, mas, principalmente, de verificar qual a posição que ocupa e como esta se articula com as demais categorias do todo real e concreto.

Vamos ver como ele diz, pegando citação do texto na internet:

“Ao estudarmos um determinado país do ponto de vista da sua economia política, começamos por analisar a sua população, a divisão desta em classes, a cidade, o campo, o mar, os diferentes ramos da produção, a exportação e a importação, a produção e o consumo anuais, os preços das mercadorias, etc.”

O primeiro destaque a fazer aqui é que o ponto de vista já é o da economia política, quer dizer, que o foco do estudo já pesquisa seu alvo ou finalidade que é a economia política. O mesmo se pode dizer dos filósofos naturalistas da Grécia Antiga que adotaram o ponto de vista do atomismo, ou seja, que já pesquisavam no seu estudo o seu fim ou objetivo que é o atomismo. Ou seja, os economistas começavam estudando ‘a população, a divisão desta em classes, a cidade, o campo, o mar, os diferentes ramos da produção, a exportação e a importação, a produção e o consumo anuais, os preços das mercadorias, etc.’, como, aliás, qualquer estudante ou interessado no assunto quer começar porque é precisamente esse conjunto aquilo que quer compreender. O mesmo ocorria com os filósofos atomistas da Natureza, eles se dedicavam de início aos fenômenos naturais positivos, os quais, por sua vez, a cada análise iam se dissolvendo em fenômenos naturais cada vez mais invisíveis e/ou não-positivos, de modo que ia aumentando o espaço vazio junto com a redução da diversidade de corpos plenos até que chegavam à concepção do vazio e dos átomos.

“Parece correto começar pelo real e o concreto, pelo que se supõe efetivo; por exemplo, na economia, partir da população, que constitui a base e o sujeito do ato social da produção no seu conjunto. Contudo, a um exame mais atento, tal revela-se falso. A população é uma abstração quando, por exemplo, deixamos de lado as classes de que se compõe. Por sua vez, estas classes serão uma palavra oca se ignorarmos os elementos em que se baseiam, por exemplo, o trabalho assalariado, o capital, etc. Estes últimos supõem a troca, a divisao do trabalho, os preços, etc. O capital, por exemplo, não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem os preços, etc.”

O que queremos é conhecer a Natureza real e concreta ou a Sociedade real e concreta, então, é claro, queremos começar conhecendo elas, mas, assim que começamos a conhecê-las elas começam a escapar de nós. Começamos por uma determinação real e concreta como é a população e logo ela se abstrai desta determinação real e concreta apresentando outra determinação real e concreta que são as classes, mas estas, por sua vez, se abstraem escapando novamente desta outra determinação real e concreta por meio da apresentação de outras determinações reais e concretas que são o trabalho assalariado, o capital, a propriedade fundiária, as quais, por sua vez, são meras abstrações se não estiverem conectadas à troca, à divisão do trabalho, aos preços, etc. que são outras determinações reais e concretas que lhes dão vida. Então, podemos dizer que começando pelo começo, tal qual queremos começar, porque queremos conhecer o assunto desde o começo, caminhamos de frustração em frustração para um conjunto cada vez mais preciso de determinações muito distantes e abstraídas deste começo a ponto de considerarmos que o real e concreto são estas determinações muito distantes e abstraídas do real e concreto ou, pelo menos, a ponto de considerarmos que o conhecimento do real e concreto é o conhecimento destas determinações muito distanciadas e abstraídas do real e concreto pelo qual começamos.

“Por conseguinte, se começássemos simplesmente pela população, teríamos uma visão caótica do conjunto. Por uma análise cada vez mais precisa chegaríamos a representações cada vez mais simples; do concreto inicialmente representado passaríamos a abstrações progressivamente mais sutis até alcançarmos as determinações mais simples. Aqui chegados, teríamos que empreender a viagem de regresso até encontrarmos de novo a população – desta vez não teríamos uma idéia caótica de todo, mas uma rica totalidade com múltiplas determinações e relações.”

Marx aqui nos diz que se começarmos pelo começo chegaremos tais quais os antigos filósofos da Natureza ao atomismo e tais quais os modernos filósofos da Sociedade à economia política, quer dizer, chegaremos apenas ao conjunto de determinações mais simples abstraídas e distanciadas da Natureza e/ou da Sociedade do começo, mas a um conjunto de de determinações abstratas que, para nós, se constitui no conhecimento atomista da Natureza e/ou no conhecimento econômico político da Sociedade.

“Tal foi historicamente, a primeira via adotada pela economia política ao surgir. Os economistas do século XVII, por exemplo, partem sempre do todo vivo: a população, a nação, o Estado, vários Estados etc.; no entanto, acabam sempre por descobrir, mediante a análise, um certo número de relações gerais abstratas determinantes, tais como a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor etc. Uma vez fixados e mais ou menos elaborados estes fatores começam a surgir os sistemas econômicos que, partindo de noções simples – trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca – se elevam até ao Estado, à troca entre nações, ao mercado universal. Eis, manifestamente, o método científico correto.”

Aqui Marx diferencia os atomistas e os economistas políticos, de modo que os primeiros são os fundadores do conhecimento/ciência do atomista e/ou do economista político, mas estes possuem apenas o conhecimento dos princípios atomistas e/ou econômico-politicos do real e concreto, enquanto que os segundos, por meio da elaboração crítica destes princípios do atomismo e/ou da economia política, chegam num processo inverso, ou seja, em lugar da passagem duma determinação concreta para a abstração e queda numa outra determinação concreta ocorre a passagem duma determinação concreta mais distante e abstraída do começo para a concreção e elevação a uma outra determinação concreta mais próxima e concretizante do começo do qual partimos, quer dizer, mais próxima e concretizante do real concreto natural e/ou social que queremos conhecer.

“O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações e, por isso, é a unidade do diverso. Aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, e não como ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida, e, portanto, também, o ponto de partida da intuição e da representação. No primeiro caso, a representação plena é volatilizada numa determinação abstrata; no segundo caso, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto pela via do pensamento. Eis por que Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que, partindo de si mesmo se concentra em si mesmo, se aprofunda em si mesmo e se movimenta por si mesmo; ao passo que o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto é, para o pensamento, apenas a maneira de se apropriar do concreto, de o reproduzir na forma de concreto pensado; porém, não é este de modo nenhum o processo de gênese do concreto em si. Com efeito, a mais simples categoria econômica – por exemplo, o valor de troca – supõe uma população, população essa que produz em condições determinadas; supõe ainda um certo tipo de família, ou de comunidade, ou de Estado, etc. Tal valor não pode existir nunca senão sob a forma de relação unilateral e abstrata, no seio de um todo concreto e vivo já dado. Pelo contrário, como categoria, o valor de troca tem uma existência anti-diluviana.”

Aqui Marx se atém ao que passou com a consciência durante todo o processo. Primeiro, destaca que a consciência só chega ao conhecimento do real e concreto que quer conhecer por meio da síntese de múltiplas determinações, ou seja, o concreto só é concreto na consciência como um resultado do conhecimento sintético de múltiplas determinações abstratas. De modo que o conhecimento direto do real e concreto só conduz à análise e/ou à constituição de um conjunto de múltiplas determinações abstratas, quer dizer, conduz da consciência direta do real e concreto à consciência direta de um conjunto de múltiplas determinações abstratas, melhor, conduz da percepção do ser real e concreto à percepção da consciência racional e abstrata. Só quando se parte desta consciência racional e abstrata, quer dizer, quando se parte do conhecimento ou ciência do atomismo/da economia política, logo, neste sentido, só quando se parte da consciência de si e/ou do conjunto de múltiplas determinações abstratas e se vai elevando da concreção de determinação mais distante e abstrata para a concreção de determinação mais próxima e concreta é que se alcança àquilo que se queria desde o começo e que é o conhecimento do real e concreto. Mas, este real e concreto é um conhecimento do real e concreto no pensamento e não uma apropriação do real e concreto tal qual ele é no ser real e concreto, ou seja, estas múltiplas determinações do atomismo e/ou da economia política não são múltiplas determinações do pensamento do ser real e concreto e sim do pensamento da consciência humana de si imaginária e abstrata. Noutras palavras, não é o pensamento que pensando e elaborando a si mesmo produz o real e concreto, logo, não é o pensamento destas múltiplas determinações que se pensando a si mesmo produz o real e concreto tal qual ele é, porque esta é a produção do real e concreto pensado, quer dizer, é a produção do real e concreto da consciência de si humana e não da consciência de si do próprio ser real e concreto. Claro que a consciência de si humana é consciência de si do ser humano real e concreto natural e social, mas não é consciência de si real e concreta da própria Natureza nem da própria Sociedade, mais ainda não é a consciência de si que realiza e concretiza a própria Natureza e a própria Sociedade. Noutras palavras, estas múltiplas determinações abstratas são criadas pelas apropriações humanas do real e concreto, logo, são criações históricas das apropriações humanas do real e concreto ou são concreções e realizações de apropriações criadoras de história humana. Não são criações do pensamento que pensa a si mesmo numa consciência de si independente e própria de um ser racional e abstrato não-humano, quer dizer, estas múltiplas determinações abstratas que formaram as disciplinas do atomismo e/ou da economia política não são múltiplas determinações abstratas independentes da atividade humana de conhecimento, mas sim produtos desta atividade humana de conhecimento. O real e concreto tal qual ele é permanece fora do pensamento e do conhecimento, mas o pensamento e o conhecimento conseguem chegar o mais próximo possível dele suprimindo as múltiplas determinações abstratas da disciplina do atomismo e/ou da economia polítca, quer dizer, se elevando destas múltiplas determinações abstratas à realização e concreção duma síntese (ou supressão) das múltiplas determinações. E, desse modo, o real concreto aparece para a consciência humana de si como uma unidade da diversidade, quer dizer, as múltiplas determinações abstratas aparecem como a pluralidade concreta do real e concreto, enquanto que a consciência humana de si aparece como a unidade ou a singularidade abstrata ou a atividade sintetizadora da pluralidade concreta do real. Como podemos perceber a atividade de conhecimento costuma nos pregar a peça de escapar para o abstrato e quando nos fixa no abstrato nos prega a peça de escapar para o concreto, mas, para um concreto de pensamento, um concreto da consciência humana de si e não para o próprio real e concreto.

Como também se pode ver a dificuldade maior aqui é minha, já que para compreender preciso escrever muito mais do que o autor que leio. Voltemos a ele.

“(…) o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto é, para o pensamento, apenas a maneira de se apropriar do concreto, de o reproduzir na forma de concreto pensado; porém, não é este de modo nenhum o processo de gênese do concreto em si. Com efeito, a mais simples categoria econômica – por exemplo, o valor de troca – supõe uma população, população essa que produz em condições determinadas; supõe ainda um certo tipo de família, ou de comunidade, ou de Estado, etc. Tal valor não pode existir nunca senão sob a forma de relação unilateral e abstrata, no seio de um todo concreto e vivo já dado. Pelo contrário, como categoria, o valor de troca tem uma existência anti-diluviana.”

Este texto deixa claro “dois métodos”, melhor, duas formas de achar e se relacionar com as determinações abstratas (textualmente são ‘a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor etc.’ e ‘trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca’). A primeira forma é aquela que, lidando com o ou partindo diretamente do real concreto, tem por resultado achar as determinações abstratas. A segunda é aquela que, lidando com as ou partindo diretamente das determinações abstratas, tem por resultado achar o real concreto abstratamente construído/concebido.

Não há como não lembrar da tese de doutorado de Marx sobre Demócrito e Epicuro, porque nela Demócrito é aquele que tal qual os ‘economistas do século XVII’ volatiza(m) a representação plena numa determinação abstrata, quer dizer, são estes economistas que fundam a economia bem como Demócrito é um dos fundadores do atomismo.

Nem dá para esquecer que Epicuro é um atomista que, à maneira dos economistas acostumados com as determinações abstratas descobertas pelos economistas do século XVII, os quais, por elaborarem mais ou menos e por fixarem estas determinações abstratas, fundaram a economia do mesmo modo que Demócrito foi fundador do atomismo, adota estas determinações abstratas como ponto de partida e, assim, desenvolve o atomismo elaborando ainda mais as determinações abstratas e vindo delas até à representação plena da vida feliz real e concreta do mesmo modo que os economistas do século XVIII e XIX concebem sistemas econômicos que representam plenamente o modo de vida real e concreto.

Os fundadores da economia são semelhantes aos fundadores do atomismo e também àquilo que Marx chamou de caráter revolucionário da burguesia e que é a revolução incessante dos meios de produção que dissolve no ar tudo que é sólido. Já os economistas posteriores se atêm a esta característica revolucionária da burguesia de revolucionar incessantemente os meios de produção dissolvendo no ar tudo que é sólido e, por meio dela, constroem e/ou produzem a concreção duma realidade abstrata e/ou a solidez do capital, quer dizer, a solidez duma produção inteiramente social, no sentido de artificial, não-natural, inteiramente pensada e produto (quase) exclusivo do trabalho humano.

Os fundadores parecem ter chegado aos seus princípios abstratos determinantes por meio da crítica do todo vivo real concreto, enquanto que os posteriores parecem ter chegado ao todo vivo real concreto pensado, quer dizer, ao todo morto imaginário abstrato ativado no pensamento por meio da elaboração crítica dos seus princípios abstratos determinantes. Os primeiros parecem ter chegado aos princípios determinantes abstratos por meio duma crítica do real, logo, por meio da ação sobre um objeto material/positivo e os segundos parecem ter chegado ao todo concreto pensado por meio duma crítica do conceitual, logo, por meio da ação sobre um objeto ideal/imaginário. Os primeiros parecem ter feito do real concreto algo que se desmancha no ar em pensamento e os segundos parecem ter feito do imaginário abstrato algo que se materializa no ar em ser.

Pela crítica do ser real concreto os primeiros chegam aos princípios determinantes do pensamento imaginário abstrato e por meio da crítica dos princípios determinantes do pensamento imaginário abstrato os segundos chegam à determinação do ser real concreto no pensamento. Os primeiros partindo do ser chegam à consciência e a si os segundos partindo da consciência de si chegam ao ser.

De todo modo as determinações simples às quais chegam os primeiros economistas atravessando e desmanchando no ar tudo que é sólido são tomadas como ponto de partida dos economistas posteriores que vão condensando e concretizando no ar tudo que é sólido. Os primeiros chegaram com suas forças humanas de trabalho a produzir os princípios abstratos ou os meios de produção de tudo que é sólido, já os segundos aplicaram suas forças de trabalho na ativação ou atividade de elaboração dos princípios abstratos ou meios de produção de modo a produzir tudo que é sólido.

As determinações simples dos atomistas se referem à reflexão ou relação entre o pensamento humano e o ser natural, já as determinações simples dos economistas se referem à reflexão ou à relação entre o pensamento humano e o ser social.

Podemos ver os primeiros atomistas e economistas numa atividade de exploração e extração dos princípios simples determinantes e ver os segundos atomistas e economistas numa atividade de co-operação e criação dos princípios simples determinantes.

Os primeiros são nômades, exploradores, aventureiros, conquistadores etc. e os segundos são sedentários, cultivadores, venturosos, criadores etc.

Os primeiros são expulsos e empurrados para fora do conforto pelos princípios simples determinantes que os lançam na inquietação e aventura de desmanchar no ar tudo que é sólido. Os segundo são recebidos e acolhidos dentro do conforto dos princípios simples determinantes que os acolhem no repouso e satisfação/felicidade de criar no ar tudo que é sólido.

A principal consequência disto é que a força humana de trabalho que criou os princípios simples determinantes ou os meios de produção é heroica/ansiosa/angustiada ou dedicada ao tempo de trabalho, enquanto que a força humana de trabalho que criou a partir dos princípios simples determinantes ou dos meios de produção é satisfeita/serena/feliz ou dedicada ao tempo livre.

Noutras palavras, no processo de emancipação dos trabalhadores o principal é a socialização dos meios de produção que corresponde à capitalização das forças humanas dos trabalhadores pela apropriação dos meios de produção.

Isto significa que os meios de produção, cada vez mais produtivos e que dispensam forças humanas de trabalho, precisam ser, ao mesmo tempo, cada vez mais, meios de produção apropriados ou capital das forças humanas dos trabalhadores, logo, significa que as forças humanas dos trabalhadores se tornam cada vez mais capital humano e/ou proprietárias dos meios de produção e livres do tempo de trabalho em lugar de cada vez mais expropriadas do capital humano e/ou da propriedade dos meios de produção e prisioneiras/necessitadas de tempo de trabalho.

 

 

 

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